O Brasil possui atualmente referências importantes no Al Nasr Club, tradicional agremiação dos Emirados Árabes Unidos. Em campo, o meia Léo Lima, com passagens por Vasco, Palmeiras, São Paulo e Goiás, entre outros times, é destaque da formação principal do treinador Walter Zenga. Na gestão técnica de campo, nomes como Luis Fernando Abichabick, treinador do sub-19, e Caio Zanardi, diretor técnico e coordenador da Academia do clube, realizam um trabalho ligado à formação de atletas e desenvolvimento de novos talentos.
Ao se verificar a necessidade de uma maior interação, bem como um planejamento uniforme em longo prazo entre as categorias de base e a própria escolinha de futebol, o staff do Al Nasr resolveu apostar em mais um brasileiro para compor a estrutura deste departamento. E Douglas Saretti aceitou o desafio.
Após estágio no São Paulo, na categoria sub-13, Saretti mirgou para o Grêmio Barueri, onde teve a oportunidade de fazer parte da iniciação de um trabalho na categoria sub-15. Em seguida, passou pelo sub-17, antes de se transferir para o Santo André, em 2009. Ainda acumulou uma passagem rápida pelo Corinthians, na função de preparador físico da equipe B.
“Acabei ficando pouco tempo no clube e após minha saída fui convidado para coordenar um projeto de iniciação em futebol no Grêmio Barueri (2011). Em junho do mesmo ano, apareceu uma proposta do Al Nasr Club, após a indicação do meu nome pelo Luis Fernando Abichabick, então treinador do sub-19, e com quem tive o prazer de trabalhar no Santo André”, resume Saretti, que atua com os jovens do sub-6 ao sub-13.
Para ele, o jogo de futebol não é feito apenas de movimentos técnicos, sendo a relação com a bola uma das competências essenciais do jogo. Muito por conta disso, o professor precisa, ao desenvolver esses mesmos jogos, preocupar-se em facilitar a aprendizagem da estruturação do espaço e da comunicação na ação, tratando-as na perspectiva das competências gerais em sua periodização do processo de iniciação.
“No departamento de iniciação, eu encontrei alguns bons profissionais, mas a maior dificuldade era a periodização, a conexão entre os treinamentos, até porque o pensamento, até então, era ensinar através de treinos analíticos, e hoje, após seis meses de trabalho, o feedback tem sido bastante positivo”, revela.
Saretti também enaltece a convivência com outros treinadores, locais e estrangeiros, situação que acrescenta muito na maneira de se entender, planejar e ensinar futebol. Além disso, é possível ter uma amostra geral de como o futebol brasileiro está sendo observado pelo mundo.
Nesta entrevista à Universidade do Futebol, ele fala um pouco mais sobre seu cotidiano de trabalho, suas funções, a estrutura de trabalho encontrada no Oriente Médio e como a oportunidade de trabalhar no futsal foi importante para a sua própria compreensão do jogo.
“Vi que nos treinamentos do futsal, por exemplo, os padrões de movimentação ofensiva e defensiva são perfeitamente possíveis de ser aplicados no futebol e penso que a evolução do futebol acontece nesse sentido”, finaliza.
Universidade do Futebol – Douglas, em primeiro lugar, fale um pouco sobre sua formação acadêmica, bem como seu ingresso e a trajetória no futebol profissional, até a a oportunidade de trabalhar nos Emirados Árabes Unidos (EAU)
Douglas Saretti – Minha formação acadêmica é de Bacharel em Educação Física pela Universidade Adventista de São Paulo (Unasp) e pós-graduação em fisiologia do exercício (IWL).
Em 2005, comecei estagiar no São Paulo Futebol Clube a convite do professor Rodrigo Pignataro, na categoria sub-13, na qual permaneci até final de 2006, quando me transferi para o Grêmio Barueri e tive a oportunidade de fazer parte da iniciação de um trabalho na categoria sub-15; no ano seguinte fui para o sub-17 e depois do vice-campeonato me transferi para Esporte Clube Santo André (2009), no qual permaneci até outubro de 2010, quando recebi um convite para trabalhar no time B do Sport Club Corinthians Paulista.
Acabei ficando pouco tempo no clube e após minha saída fui convidado para coordenar um projeto de iniciação em futebol no Grêmio Barueri (2011). Em junho do mesmo ano, apareceu uma proposta do Al Nasr Club, após a indicação do meu nome pelo Luis Fernando Abichabick, então treinador do sub-19, e com quem tive o prazer de trabalhar no Santo André.
Minha ida para o Al Nasr se deu após uma análise do diretor técnico do clube, Caio Zanardi, sobre processo de formação de atletas: o mesmo verificou a necessidade de uma maior interação, bem como um planejamento uniforme em longo prazo entre os departamentos (base e escolinha).

Após experiência no Brasil, Douglas Saretti recebeu o convite para planejar de modo uniforme o departamente de futebol de base do Al Nasr
Universidade do Futebol – Como é estruturado o departamento de futebol profissional do Al Nasr e quais as suas funções? Elas se limitam à equipe principal, ou há um trabalho integrado com as categorias de base? Se sim, explique um pouco.
Douglas Saretti – O departamento é muito bem estruturado. O atual treinador é o ex-goleiro da Inter de Milão, Walter Zenga.
Existe uma integração, sim, mas esta é feita através de observação dos jogadores da base e a partir de gráficos e relatórios de desempenho e performance, desenvolvidos principalmente pelo treinador Luis Fernando, que é o responsável pela equipe sub-19 e entregue ao diretor Caio, responsável por esse link.
Universidade do Futebol – A sua adaptação ao idioma local aconteceu com facilidade?
Douglas Saretti – Minha adaptação ao idioma local ainda está acontecendo, mas aqui se fala o inglês como segunda língua. O grande problema é que as crianças não entendem o inglês, então toda comunicação se dá através dos treinadores.
Universidade do Futebol – Qual é a importância dessa interação com outras culturas para o desenvolvimento de sua carreira?
Douglas Saretti – É extremamente importante interagir com outras culturas, conviver com problemas diferentes, situações opostas ou iguais com soluções diferentes. Apesar de ser contratado para passar toda a minha experiência, acabamos aprendendo, também.
A convivência com outros treinadores, locais ou estrangeiros, acrescenta muito na maneira de se entender, planejar e ensinar futebol. Além de ter uma visão geral de como o futebol brasileiro está sendo observado pelo mundo.
Artigo "Iniciação ao futebol - concepções metodológicas do treinamento"
Universidade do Futebol – Como você classificaria a infraestrutura de trabalho (centro de treinamento, departamentos médico e de fisiologia, integração com profissionais ligados às Ciências do Esporte, etc.) no Al Nasr? Pode-se dizer que o clube é uma das grandes forças nacionais e um emergente em termos internacionais?
Douglas Saretti – O clube tem uma excelente infraestrutura: possui cinco campos para as categorias com dimensões oficiais e atende ao sub-14, 15, 17, 19 e 20; um estádio para jogos e treinos da equipe profissional; a soccer school também possui dois campos com dimensões oficiais (sub-12 e 13) e mais seis com dimensões menores para as categorias sub-6, 7, 8, 9, 10 e 11.
O clube não tem um departamento de fisiologia, e todo o processo de avaliação e monitoramento dos indicadores de performance é feito pelo próprio preparador físico da respectiva categoria.
O Al Nasr é o clube mais tradicional de Dubai, fundado em 1945, e tem evoluído muito, principalmente nos últimos quatro anos, com a chegada do diretor técnico Caio Zanardi, e a implementação de novos métodos de trabalho e a indicação de bons profissionais para o departamento de futebol.
Sem dúvida nenhuma o clube é uma das grandes forças nacionais, principalmente pela fase que está vivendo – o principal destaque da equipe dentro de campo é o jogador Léo Lima, ídolo da torcida.
Universidade do Futebol – Como foi a receptividade e como você fez para contornar a "resistência" até que as pessoas conhecessem o seu trabalho?
Douglas Saretti – Minha receptividade foi muito boa, melhor do que eu esperava. No departamento de iniciação, eu encontrei alguns bons profissionais, mas a maior dificuldade era a periodização, a conexão entre os treinamentos, até porque o pensamento, até então, era ensinar através de treinos analíticos, e hoje, após seis meses de trabalho, o feedback tem sido bastante positivo.
A resistência não existiu. O que houve foi uma dificuldade por parte dos treinadores na criação de exercícios utilizando jogos estratégicos e de inteligência em campo reduzido.

"Preparação Física" vs "Periodização Tática": os erros de um combate! Confira a análise do professor Rodrigo Leitão
Universidade do Futebol – Nos seus cursos de graduação e pós-graduação no Brasil, você conseguiu as ferramentas necessárias para a parte prática das suas funções, ou você precisou adequar-se a algumas situações e aprender outras nos EAU?
Douglas Saretti – Nos cursos de graduação, você tem uma ideia geral do que é o esporte e acaba saindo com muitas questões não respondidas. A partir daí você vai traçando e direcionando o seu caminho, através de uma atualização constante, seja esta através de cursos de extensão, especialização e até mesmo conversas informais com outros colegas.
Mas com certeza a adequação é necessária para aplicação prática dessas mesmas ferramentas que você adquiriu na universidade e no dia a dia após cada sessão de treino, após cada palestra e a cada reunião.
Universidade do Futebol – Há muitas diferenças em relação à cultura na preparação desportiva dos jogadores de futebol nos EAU? E em relação às avaliações físicas, como isso é trabalhado?
Douglas Saretti – A diferença cultural existe, sim, porque temos aqui muitos estrangeiros trabalhando e utilizando metodologias e filosofia de trabalho diferentes entre si.
Em relação às avaliações físicas, no Al Nasr, por exemplo, as equipes da base iniciaram a temporada com testes de campo, yoyo test, velocidade aeróbia (test vamemal), velocidade 0, 10, 20 lançados e 30m, avaliação da composição corporal e antropométrica e jump test. Mas temos clubes aqui mais bem equipados, como é o caso do Al Gharafa, que usa o smart speed nas avaliações e treinos, comandados pelo técnico brasileiro Leonardo Vitorino.
Universidade do Futebol – Alguns clubes no Brasil não analisam e utilizam mais o VO2 máximo como preditor de performance. No Al Nasr, o que é avaliado nesse sentido?
Douglas Saretti – Em relação à equipe profissional, eu não tenho acesso a esta informação, mas na base, por exemplo, nas equipes sub-17 e 19, o preparador físico utiliza a velocidade aeróbia máxima e o Vo2 máximo como preditor de performance.
Universidade do Futebol – Você se utiliza da periodização do treinamento e dos microciclos? De que maneira definiria sua metodologia de treinamento?
Douglas Saretti – Como preparador físico, já utilizei o modelo de cargas seletivas e modelo em blocos. No meu trabalho, o mais importante é adaptar o meu atleta àquilo que o treinador espera dele (funções). Procuro utilizar trabalhos de transferências (coordenativos, gesto técnico e ações ofensivas e defensivas), técnicas de LPO e de treinamento funcional.

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Universidade do Futebol – Como é a sua relação de estruturação de trabalho como treinador? Como você estrutura o treino?
Douglas Saretti – Agora, nessa nova função com a iniciação esportiva, estou utilizando um mesociclo de nove semanas, em que uso três semanas para desenvolvimento de uma unidade funcional e a cada três semanas mudo o objetivo principal da unidade funcional.
Se meu objetivo é trabalhar a estruturação do espaço – defensivamente (usar o espaço, jogar perto e longe, equilíbrio na ocupação do espaço) e ofensivamente (criação e ocupação do espaço, jogo em profundidade) –, na próxima meu alvo principal será outra unidade funcional, como interatividade com a bola ou comunicação na ação.
A ideia é se manter dentro das unidades funcionais utilizando a variabilidade e aumento da complexidade na criação dos exercícios, que, como citei anteriormente, foi a grande dificuldade inicialmente.
Universidade do Futebol – Qual a importância de um treinamento que procure integrar as diversas necessidades do jogador, tanto na parte técnica, tática, como no condicionamento físico e no preparo mental? Isso é bem compreendido no Brasil e também nos EAU?
Douglas Saretti – A importância é muito grande. Na minha opinião, a organização e a estruturação da temporada têm que ser feitas por todos os integrantes da comissão técnica, pois não dá para se ver o futebol de maneira descontextualizada.
A sessão de treino deve conter todos os componentes inerentes ao jogo, e entendo que o Brasil está evoluindo nesse sentido. Podemos ver muitos treinadores se atualizando em relação à parte psicológica; agora, aqui nos Emirados, é um pouco diferente no que se refere à parte psicológica, em especial a parte motivacional. Os jogadores não sentem muito esse tipo de estímulo, até por terem outras boas oportunidades de trabalho que o governo oferece.

"Sessão de treino deve conter todos os componentes inerentes ao jogo, e entendo que o Brasil está evoluindo nesse sentido", diz Saretti
Universidade do Futebol – Você também tem uma atuação ligada ao futsal. É possível utilizar alguns aspectos dessa modalidade para o processo de ensino-aprendizagem no ambiente profissional, ou apenas com as categorias de base?
Douglas Saretti – Tenho estudado muito sobre a periodização tática e organização dos treinos e no último ano tive a oportunidade de trabalhar no futsal com as categorias de 6 a 20 anos do Grêmio Barueri, e na categoria sub-20 de futsal com o treinador Gustavo Pires.
Vi que nos treinamentos do futsal, por exemplo, os padrões de movimentação ofensiva e defensiva são perfeitamente possíveis de ser aplicados no futebol e penso que a evolução do futebol acontece nesse sentido.
Quando trabalhamos por setor, a dinâmica é muito similar, e a única diferença é que no futsal temos os padrões de movimentação, e no futebol até temos padrões como mostram alguns estudos, principalmente em relação à equipe do Barcelona, mas esses padrões dependem da interação constante entre os setores.
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Universidade do Futebol – Qual a fronteira entre a participação do preparador físico no amparo psicológico aos atletas, e o trabalho propriamente dito de um profissional específico da área? Você aborda conceitos de auto-ajuda e neurolinguística no seu trabalho diário?
Douglas Saretti – Eu acredito muito no que Manuel Sergio diz: “Quem sabe muito apenas sobre futebol, pouco sabe sobre futebol”. Nos clubes em que já trabalhei, sempre procuro uma interatividade com o psicólogo, pois juntos conseguimos, primeiro, traçar um perfil do atleta (estilo-aprendizado, sociograma, entre outros) e, a partir daí, desenvolver simultaneamente todos os aspectos.
Se faz extremamente importante saber principalmente aplicar os trabalhos em momentos certos e sempre tive esta preocupação: às vezes precisamos do jogador 100% concentrado no trabalho tático. Neste dia, o psicólogo realizava um trabalho de modo a preparar o atleta, e quando tínhamos uma sessão de treino muito exaustiva física e mentalmente, programávamos trabalhos de relaxamento.
Durante os treinos e momentos pré-jogo, usar conceitos motivacionais é quase natural, pois atleta motivado é certeza de desenvolvimento constante durante a temporada. Procuro também usar edição de vídeos e textos sempre correlacionando exemplos de sucesso com os meus jogadores.
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