"Queremos privacidade para ter um trabalho mais tranquilo, sem muito oba-oba e sem muita confusão. Às vezes nem comissão técnica nem os jogadores criam isso. A cobrança será grande e a seleção só tem uma alternativa: vencer". A argumentação de Carlos Dunga deu toques finais à coletiva de imprensa que concedeu no último dia 11 de maio, data em que foram anunciados os 23 convocados de seu grupo para a disputa da Copa do Mundo de 2010. À ocasião, o treinador da seleção brasileira discursou de maneira ponderada e direta, utilizando-se da palavra "comprometimento" para justificar a maioria de suas escolhas.
A convocação de Dunga: distância histórico-cultural do conceito de futebol-arte
Pouco mais de um mês depois, entre alguns amistosos, duas partidas oficiais pelo Mundial e uma série de treinamentos fechados aos profissionais que trabalham em órgãos de comunicação, a preparação profissional do ex-jogador gaúcho sofreu um duro revés. Pelo menos no que se refere ao contato com jornalistas e comentaristas que cobrem o cotidiano no Randpark Golf Club, em Joanesburgo, QG do Brasil na África do Sul.
No último domingo, na entrevista que sucedeu a vitória por 3 a 1 sobre a seleção de Costa do Marfim, perguntas e respostas transcorriam, até que Alex Escobar, jornalista da TV Globo, que conversava ao telefone com um colega da emissora, supostamente teria balançado a cabeça por discordar da frase em que Dunga acusava os jornalistas de terem pedido que Luis Fabiano fosse tirado do time titular.
Nesse momento, o técnico interrompeu a resposta para interpelar Escobar, para em seguida balbuciar palavrões que vazaram no sistema de som da sala. "Besta", "Burro" e "Cagão foram os termos usados.
A repercussão para o técnico foi negativa. Poucas horas depois do incidente, durante o programa "Fantástico", Tadeu Schmidt, apresentador da emissora carioca, leu um texto afirmando que Dunga não apresentava nas entrevistas comportamento compatível de alguém tão vitorioso no esporte. "Com frequência, usa frases grosseiras e irônicas". Mas não citou qualquer tipo de acordo para entrevistas existente entre a Globo e a CBF, como revelou o jornalista do UOL Esportes, Mauricio Stycer.
Fato é que Dunga acumulou para sua trajetória um capítulo desconfortável. Ele, que passou por um por um curso de Media Training em abril, a fim de enfrentar a pressão nas entrevistas da fase de preparação e durante o torneio entre seleções, e recebeu a aprovação anterior, agora é bombardeado por críticas e poderá ver ainda mais estremecida a relação com a detentora majoritária dos direitos de transmissão dos jogos da Copa e parceira da entidade que rege o futebol brasileiro.
"O Media Training é um instrumento a mais que o processo de comunicação possui para que seus objetivos possam ser sentidos. Ao dar início a uma comunicação esportiva, estabelecem-se algumas metas e o Media Training é fundamental para que elas sejam atingidas", explicou Doro Jr., fundador da ZDL, empresa especializada no segmento de consultoria e comunicação esportiva e que trouxe do mundo corporativo e político esse processo para o esporte.
Entrevista com Doro Jr., da empresa ZDL
Executivos, personalidades e políticos são treinador assim para lidar com a imprensa, sendo um recurso bastante utilizado. No Palácio do Planalto, por exemplo, há uma divisão de "Media Training" apenas para habilitar ministros e funcionários de cúpula a falarem com profissionais midiáticos.
Quando apresentou a montagem de sua lista de atletas, Dunga teceu explicações sobre as suas escolhas sem perder a paciência com os jornalistas que o contradisseram, atendendo de maneira cordial até os mais ásperos.
Além disso, durante boa parte da intervenção, fez questão de falar diretamente com o torcedor, olhando para as mais de 30 câmeras posicionadas no ambiente. Na próxima aparição, provavelmente o comandante terá de responder sobre o "caso Escobar".
"Em uma situação de crise, o ideal é que não se fale muito, somente o necessário. É importante pontuar que deve haver um planejamento muito maior para que haja saídas daquela situação, pois haverá um enorme assédio da imprensa que terá um objetivo negativo", comentou Doro Jr., ainda em entrevista concedida à Universidade do Futebol.
"Sobre o Dunga e a imprensa", por Oliver Seitz
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