Entrevistas
18/12/2009
José Carlos Asbeg, diretor de '1958: o ano em que o mundo descobriu o Brasil'
Cineasta fala sobre a carreira, a experiência de um filme sobre ídolos e a questão social do país
Bruno Camarão

"Não jogo mais futebol! Quem joga futebol são esses brasileiros!". A declaração, mais em tom de desabafo do que raiva, foi feita pelo lateral-esquerdo Kuznetsov, da Rússia. A prévia: uma série de dribles desconcertantes aplicados pelo seu oponente, em partida pela Copa do Mundo de 1958. Tratava-se de Garrincha.

Após o jogo em que a seleção verde-amarela derrotou os rivais por 2 a 0, com um desempenho grandioso do ponta-direita, o jogador do Leste Europeu arremessou suas chuteiras contra a parede do vestiário, decretando que não era possível parar aquela formação que daria, partidas adiante, o primeiro título mundial da modalidade ao Brasil. Viktor Tseriav, companheiro de equipe de Kuznetsov, fez a revelação.

O depoimento é apenas parte de 1958: o ano em que o mundo descobriu o Brasil, obra dirigida pelo jornalista e cineasta carioca José Carlos Asbeg. Aos oito anos de idade, o autor não tinha a compreensão da representatividade daquela conquista esportiva para o momento e o futuro do país. Mas fez questão de corrigir a rota e produzir um filme que chama a atenção pela coleção luxuosa de lances e falas dos legítimos participantes daquela saga.

"São percepções em um olhar, um gesto, uma passada de mão no cabelo, pelas quais se consegue notar o controle emocional do rival, quem pode decidir um jogo, quem pode colocar tudo a perder. Essa experiência literal, de vivência, é insubstituível", explicou Asbeg, nesta entrevista à Universidade do Futebol.

Durante todo o processo de produção - foram sete anos, até a exposição ao público -, o documentarista garante ter vivido os melhores momentos profissionais de sua trajetória. Afinal, naquele grupo, que "somente" revelou Pelé ao planeta da bola, havia nomes como Gylmar dos Santos Neves, Nilton Santos, Didi e Zizinho. Eis o Brasil inteiro apresentado ao resto dos povos.

"O título mundial torna compreensivo para o brasileiro o que era ser um pouco brasileiro diante do mundo. Éramos monocultores do café, exportadores de matéria-prima, como somos hoje, apesar das diferenças, e o futebol abriu as manchetes do mundo", argumentou Asbeg.

Por intermédio do futebol, e também do samba, da poesia musical, os habitantes do país se viram mais libertos e projetados. E "1958" traz à tona novamente um tempo mais visceral, o da Bossa Nova, de Juscelino Kubistchek erguendo Brasília, de uma gente apaixonada por sua localidade.



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